Liberdade de expressão num mundo injusto

As 10 propostas de princípios do Liberdade de Expressão em Debate beneficiam aqueles que estão em posições de privilégio e poder, questiona Sebastian Huempfer.
Travellers Attend The Annual Appleby Horse Fair
Travellers sit by their romany caravans at the Appleby Horse Fair on June 3, 2011 in Appleby, England. (Photo by Christopher Furlong/Getty Images)
Devemos falar abertamente e com civilidade, diz a nossa quarta proposta de princípio, e logo adiante adicionamos “claramente isso é mais fácil para homens poderosos que pertençam à maioria dominante”. Esta ressalva, creio, se aplica a muitas das propostas de princípios: elas são mais atrativas para as maiorias e para àqueles que se encontram em posições de poder e privilégio. Se queremos que os princípios finais sejam relevantes e atrativos para todos, creio que devemos primeiro discutir esse desequilíbrio.
Irshad Manji nos disse que “a ofensa é o preço da diversidade honesta”. No entanto, o mundo como um todo e muitas sociedades desse mundo não são simplesmente “diversas”; elas são desiguais e injustas. E não podemos negligenciar essa diferença crucial, pois ainda que a diversidade complemente a liberdade de expressão, a desigualdade a corrompe criando problemas como as ofensas. As ofensas genuínas são sintomas das patologias mais profundas de uma comunidade; são os resultados de injustiças e não o preço da diversidade. Muitas das nossas propostas de princípios falham sobre esse aspecto.
O ex-diretor geral da BBC, Mark Thompson, afirmou: “algo que é feito em nome da liberdade de expressão pode ser sentido pelo receptor como ameaçador ou isolador” se esse recpetor faz parte de um grupo “que já se sente, de outras maneiras, isolado, sofrendo preconceitos e [...] podendo ver um ataque à sua religiõão como um ato de racismo disfarçado.” A partir do momento que alguns se sentem poderosos, seguros e confiantes, e outros se sentem oprimidos, controlados e excluídos, então haverá alguns que acharão nossas propostas de princípios libertadoras, enquanto outros pensarão que está visão não significa, na melhor das hipóteses, coisa alguma e que, no pior dos casos, trata-se de um insulto.
Será dado mais para aqueles que já tem?
Alguns princípios — uma mídia aberta e diversifica, comunicação para além das fronteiras — inoram que, na realidade, não somos todos semelhantes. É uma falácia pensar que aqueles que necessitam ser ouvidos serão automaticamente escutados pelo fato de agora todos podermos falar. As vozes mais fortes de ontem vão continuar sendo escutadas em qualquer admirável mundo novo de amanhã, e que nenhuma tecnologia ou quantidade tweets vai mudar isso.
“Diversidade honesta” não é o resultado inevitável de mídias abertas e canais de comunicação, pois sempre entramos nesses novos espaços sendo quem somos: poderosos ou impotentes, confiantes ou inseguros, ricos ou pobres, informados ou ignorantes, suscetíveis a onfensas ou imunes a elas. Mesmo que o campo esteja nivelado, aquele que tenha usado esteróides vai continuar ganhando. Fóruns novos e mais abertos para a expressão podem, às vezes, diminuir essas diferenças, mas as velhas regras e códigos que antecedem às novas tecnologias continuam valendo na maioria dos casos.
É por isso que a simples existência de múltiplos canais de televisão não são suficientes para assegurar que a verdade seja escutada: ainda que a Press TV existissem em 2003, eu ainda cairia nos contos de fada de Collin Powell; afinal de contas ele era o secretário de Estado dos EUA mesmo em canais de telvisão iranianos. É por isso que tecnologias abertas e participativas para disseminação de notícias e informações não são a cura para tudo: há mais gente que lê o Mail Online que qualquer outro portal de notícias. Os homens por trás de tablóides sensacionalistas tinham seu império midiático de imprensa e agora têm impérios na internet.
E isso explica o porquê do jornalismo cidadão ser tendencioso assim como o jornalismo de elite: 100 milhões de pessoas fizeram Joseph Kony um homem conhecido mundialmente ao compartilharem Kony 2012 via Facebook, mas ninguém jamais postou algo sobre os xeiques que ordenaram um cerco aos hospitais de Manama. Sempre ignoramos o despotismo e os crimes indescritíveis em certos lugares, e falamos de forma condescendente e simplista de problemas de outros lugares. É verdade que 100 milhões de pessoas acessaram muitos blogs de Uganda para ler a complexa história de Joseph Kony, mas 99,9% dessas pessoas não deram o passo seguinte.
Nesse sentido, se formos nos comunicar ultrapassando todas as fronteiras usando meios de comunicação abertos e participativos, não devemos nos enganar acreditando que uma “a diversidade honesta”, uma pluralidade de vozes ou mesmo um diálogo construtivo entre iguais vão surgir de repente e milagrosamente, onde eles nunca existiram antes. Os céticos, dissidentes e oprimidos podem agora ter acessos e oportunidades que nunca tiveram antes, mas a menos que haja um esforço coletivo para ouvir todos os lados do debate, e para dar uma chance a cada parte da verdade, vamos sempre ler, ouvir, ver ou tuitar apenas uma versão da história. Nesse século XXI, os meios de comunicação e as nossas conversas podem parecer mais diversificadas, mas ainda refletem as realidades do mundo em que vivemos, e o mais fundamental dessas realidades é que alguns têm mais poder do que outros. Simplesmente dar mais oportunidades a todos para falar não vai mudar essa desigualdade.
Um tamanho único para todos?
Outros princípios — civilidade, não-violência, não se sentir ofendido, ausência de tabus — podem servir apenas para apoiar um status quo injusto. Alguém pode argumentar que civilidade é um conceito objetivo e minucioso, afinal de contas todos se beneficiariam de um debate franco e aberto. Se todos deixássemos os outros terminarem suas frases e tolerássemos as piadas sobre nossos deuses e profetas, o mundo seria melhor, não seria?
Contudo, todas essas restrições impostas por nossas propostas de princípios servem apenas para aqueles que estão lutando: as pessoas que vivem bem não sabem o que é uma ofensa genuína, e não têm necessidade de se expressar violentamente, gritando ou dizendo palavrões, ou por escrever letras e músicas perturbadoras. Essas pessoas gostam de civilidade pelo fato de definirem o próprio sentido da palavra.
Civilidade não é um conceito nada evidente. Em vários momentos da história pensou-se que mulheres falarem por elas mesmas ou servos criticarem senhores feudais eram atos que estavam fora das fronteiras da civilidade. Evidentemente, essa não é a civilidade que queremos, no entanto esse já foi o conceito de civilidade para algumas pessoas. Nosso próprio conceito de civilidade pode ter uma longa história, mas será que é perfeito? As regras de civilidade são sempre escritas por algumas pessoas e para algumas pessoas, e há muitas pessoas cuja mensagem perderia muito de sua força se tivesse que ser expressa educadamente, e em perfeito inglês.
E se ninguém nunca infringisse as regras atuais de civilidade? E se todos tivessem sempre pacientemente reiterado os seus argumentos na esperança de que a verdade prevalecesse no fim? E se ninguém nunca tivesse levantado a voz quando se sentiu ofendido ou tenha utilizado qualquer meio que fosse necessário, ainda que esquecendo a civilidade, para gritar, xingar ou cerrar o punho? Talvez a justiça chegue, por fim, para aqueles que consigam suportar a injustiça com a civilidade, e talvez esse seja o caminho trilhado pelos mais fortes e corajosos. É verdade que os homens e as mulheres mais corojosos da história humana, os Mandelas e os Gnadhis, mantiveram a civilidade e deram a outra face. Mas nem todo mundo pode fazer isso, pois nem todos têm essa fé inabalável de que a moral do universo tende por si mesma para o lado da justiça. Eu honestamente não creio que eu poderia dar a outra cara a tapa e esperar pacientemente, e por isso não posso pedir que outras pessoas façam isso.
O princípio do seguro hipotético
As 10 proposta de princípios como aparecem aqui beneficiam alguns muito mais que a outros. Quando se trata de liberdade de expressão, mais não significa necessariamente algo melhor. Se não soubéssemos o quão alto nossas vozes soariam, não optaríamos por uma liberdade de expressão ilimitada para todos. Ao invés, iríamos querer que aceitassem suas responsabilidades de sermos respeitosos, e ouvirmos de forma genuína e com uma mente aberta a todos os lados do debate.




Fonte-http://freespeechdebate.com/

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